Pesca Fantasma: O que Acontece com as Redes que se Perdem no Mar?
Palavras-chave: pesca fantasma, redes de pesca no oceano, lixo plástico marinho, poluição oceânica, ghost gear
Você já ouviu falar em pesca fantasma? É um dos problemas ambientais mais silenciosos e mais devastadores que acontecem nos oceanos hoje. Sem câmeras, sem manchetes diárias, sem alarde. Mas com consequências profundas para a vida marinha, para os pescadores e para o nosso futuro.
Neste artigo, a gente explica o que é, por que acontece, o que a ciência diz sobre o problema e o que está sendo feito para resolver.
O que é pesca fantasma?
A pesca fantasma ocorre quando equipamentos de pesca (redes, linhas, armadilhas e tarrafas são perdidos, abandonados ou descartados no mar) e continuam capturando organismos marinhos de forma involuntária, sem que nenhum pescador esteja por trás daquela captura.
O nome é assustadoramente preciso: são redes que pescam sozinhas, como fantasmas, sem destino, sem controle, por meses ou anos a fio.
Segundo a FAO (Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura) e o PNUMA (Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente), cerca de 640 mil toneladas de equipamentos de pesca são abandonadas nos oceanos todo ano, o equivalente a mais de 50 mil caminhões cheios de lixo despejados no mar, anualmente, só de redes e petrechos.
Por que as redes são perdidas?
As causas são diversas e muitas vezes não envolvem má vontade dos pescadores, mas sim as dificuldades reais da pesca artesanal e industrial:
- Tempestades e condições climáticas extremas que fazem a rede afundar ou se romper
- Emaranhamento em outros equipamentos ou em corais e estruturas subaquáticas
- Desgaste natural sem possibilidade de recolhimento
- Falta de infraestrutura para descarte adequado em terra
- Pressão econômica: redes de nylon são mais baratas do que o custo de recuperação, criando um incentivo perverso ao abandono
No Brasil, a situação é agravada pela estrutura da pesca artesanal, especialmente em regiões como a Costa Verde (RJ): barcos maiores chegam a deixar redes danificadas com pescadores artesanais para conserto; a parte aproveitável é devolvida, a parte comprometida (pesada, engordurada, sem valor de mercado) fica nas comunidades sem qualquer destino.
O problema do plástico: por que não se decompõe?
Até poucas décadas atrás, as redes de pesca eram feitas de fibras naturais (algodão, sisal, cânhamo) que se degradavam naturalmente no mar em questão de meses.
A revolução do nylon e da poliamida na segunda metade do século XX mudou tudo. Essas redes são muito mais resistentes, mais baratas e mais eficientes. Mas têm um custo ecológico brutal: levam entre 400 e 600 anos para se decompor no ambiente marinho.
Durante esse tempo, elas não desaparecem — elas se fragmentam em microplásticos, partículas invisíveis a olho nu que entram na cadeia alimentar, são ingeridas por zooplâncton, peixes, aves e mamíferos marinhos, e eventualmente chegam à nossa mesa.
De acordo com a FAO (2022), equipamentos de pesca representam aproximadamente 10% de todo o lixo plástico no oceano, uma das categorias mais expressivas e, ao mesmo tempo, das menos discutidas publicamente.
Quem sofre com isso?
A vida marinha
A pesca fantasma não discrimina: ela captura tartarugas marinhas, golfinhos, tubarões, raias, polvos, caranguejos, aves marinhas e dezenas de outras espécies não-alvo. Animais que se emaranham nas redes frequentemente morrem afogados, esmagados ou exauridos tentando se soltar.
Um estudo publicado no periódico Marine Pollution Bulletin (Richardson et al., 2019) estimou que a pesca fantasma afeta pelo menos 136 espécies marinhas em nível global, incluindo espécies ameaçadas de extinção.
Os ecossistemas
Redes abandonadas em fundos oceânicos causam a destruição física de habitats como recifes de coral e pradarias de algas marinhas, ambientes de altíssima biodiversidade e fundamentais para a reprodução de inúmeras espécies. Uma única rede presa em um recife pode causar danos estruturais irreversíveis.
Os próprios pescadores
A pesca fantasma reduz os estoques pesqueiros ao capturar animais que nunca vão chegar ao mercado, comprometendo a segurança alimentar e a renda das comunidades que dependem do mar. Pescadores artesanais, que já competem em condições desiguais com a pesca industrial, são os mais afetados.
O que a ciência propõe?
A comunidade científica tem avançado em algumas frentes:
- Materiais biodegradáveis: pesquisas com redes feitas de biopolímeros que se degradam em condições marinhas estão em desenvolvimento em vários países, mas ainda enfrentam barreiras de custo e escala.
- Rastreamento e georeferenciamento: sistemas de monitoramento permitem identificar onde redes foram perdidas e facilitar sua recuperação.
- Economia circular aplicada à pesca: a reutilização ou reciclagem das redes coletadas como matéria-prima para novos produtos é uma das soluções mais promissoras em termos de viabilidade econômica e ambiental.
- Educação e politicas públicas: a Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar (UNCLOS) e os compromissos do Acordo Global sobre Plásticos (em negociação) incluem metas para redução de resíduos pesqueiros, mas sua implementação depende de pressão social e vontade política.
O que está sendo feito no Brasil
A Marulho nasceu exatamente desse problema. Na Costa Verde do Rio de Janeiro, a equipe coleta redes descartadas por pescadores artesanais de Ilha Grande, triaga, higieniza e as transforma em produtos de design sustentável, bolsas, mochilas, acessórios, com as mãos de costureiras e redeiros das próprias comunidades.
Cada peça vendida representa menos plástico no mar, mais renda para quem vive da costa e a preservação de um saber-fazer caiçara que tem séculos de história.
A iniciativa é reconhecida pela Década da Ciência Oceânica da ONU (2021–2030) e integra uma cadeia de valor que transforma o problema da pesca fantasma em oportunidade real de impacto.
Você também faz parte dessa história
A pesca fantasma pode parecer um problema distante, algo que acontece no fundo do mar, longe dos olhos. Mas cada escolha de consumo, cada produto que você decide comprar, cada organização que você decide apoiar manda um sinal ao mercado sobre o futuro que você quer.
Conhecer o problema já é um passo. O próximo é agir.
Referências científicas:
- FAO/UNEP (2009). Abandoned, Lost or Otherwise Discarded Fishing Gear. UNEP Regional Seas Reports and Studies No. 185.
- FAO (2022). Ghost Fishing Gear and Mitigation Measures. FAO Fisheries and Aquaculture Technical Paper No. 685.
- Richardson, K. et al. (2019). Global estimates of fishing gear lost to the ocean each year. Science Advances, 5(9).
- Global Ghost Gear Initiative (2023). The Ghost Gear Problem. World Animal Protection.
- Macfadyen, G.; Huntington, T.; Cappell, R. (2009). Abandoned, Lost or Otherwise Discarded Fishing Gear. UNEP/FAO.






